
Era manhã de 4 de Junho de 1993. A Rádio Comercial tinha sido privatizada, deixando de pertencer à RDP e passando a fazer parte do grupo Correio da Manhã. No Porto, a histórica Rádio Comercial Norte (RCN), na rua Tenente Valadim, vivia dias de expectativa.
A malta mais nova, na qual eu me incluía, tinha a ilusão de que agora é que ia ser... Há algum tempo que se esperava a visita do novo patrão, o empresário Carlos Barbosa. E ele veio, nessa manhã. Entrou e subiu, directamente, ao gabinete do director da RCN, Rui de Melo. Aí estava, finalmente, o homem que nos ia abrir as portas da modernização radiofónica.
Pouco tempo antes, um mês talvez, Nassalete Miranda, chefe de redacção da RCN, havia regressado à Antena 1, optando por manter a categoria de funcionária pública, na Radiodifusão Portuguesa. Com ela seguiu apenas uma jornalista da RCN, por sinal irmã. A Antena 1 precisava de vozes femininas na informação, disseram-nos...
Nessa manhã, Rui de Melo manda subir ao gabinete os chefes dos vários departamentos da RCN. Iam ser apresentados ao novo patrão, pensamos nós. Passaram-se umas duas horas. Durante esse período, uma cara desconhecida aguardava na recepção, com um pequeno saco desportivo a seu lado. Um pormenor a que daríamos importância apenas algumas horas depois.
Por volta da hora do almoço, Costa Monteiro, grande amigo e chefe da programação, desce as escadas estranhamente nervoso. "Eh pá, comecem a arrumar as vossas coisas que esta merda fecha hoje". Foram as únicas palavras que conseguiu dizer, perante o espanto geral. E subiu, de novo, ao gabinete da direcção.
O misterioso personagem e respectivo saco desportivo desapareceram, entretanto. Poucos minutos depois, tomamos, finalmente, consciência da sua presença ao vê-lo sair da casa-de-banho. Agora, fardado! Era de uma empresa de segurança. Securitas, se bem me recordo...
Quase ao mesmo tempo, como se a situação tivesse sido ensaiada, entra em cena um novo personagem. Nem bom dia, nem boa tarde... Limitou-se a tirar o material da caixa de ferramentas e desatou a trocar as fechaduras de todas as portas do edifício.
A desorientação começava a ser total... Costa Monteiro não estava a brincar. Havia qualquer coisa de muito estranho que se estava a passar e nós começávamos a sentir o coração palpitar cada vez mais forte.
Não me lembro de ter almoçado. Recordo que a meio da tarde recebemos, finalmente, o convite para que todos os funcionários subissem ao primeiro andar, onde nos esperava Carlos Barbosa, o patrão por quem com tanta esperança tínhamos aguardado...
Jovens e veteranos... Estavamos todos - os que se encontravam de serviço! - de frente para o senhor que tinha vindo de Lisboa. O discurso começou. Sem hesitação, sem aparentar ponta de emoção. A conversa que mais temíamos. Que a estrutura da Rádio Comercial era muito pesada, que a empresa não tinha futuro assim, que à meia-noite desse mesmo dia a RCN deixaria de existir, passando a funcionar como mero retransmissor da emissão de Lisboa.
O senhor agradeceu, então, com um sorriso nos lábios, a dedicação de todos à rádio - alguns já lá estavam há muito mais de 30 anos... - e prometeu a vinda de um advogado, no dia seguinte, que connosco iria falar. Por sinal, ironia das ironias, o mesmo que, meses antes, me havia defendido num processo!
Carlos Barbosa não contou tudo. "Esqueceu-se" de informar que, a partir daquele momento, ninguém saía das instalações sem o consentimento - por escrito - do director, Rui de Melo. Daí a presença do segurança que, entretanto, havia recebido reforços...
É hoje difícil recordar as horas seguintes. Estas coisas são como um trauma de guerra (salvo as devidas comparações). Ninguém gosta de recordar...
Entretanto, a notícia tornou-se pública. O Porto, então com três grandes jornais..., ficou abalado com a novidade. Os jornalistas começaram a amontoar-se à porta do histórico edifício. Uns em reportagem, muitos em solidariedade com os que, lá dentro, viviam horas de agonia. De entre todos, dois amigos especiais telefonaram-me e prometeram ajudar-me: Fernando Teles, prematuramente desaparecido, e Francisco Neves. Ambos jornalistas da Lusa, onde, um mês depois, eu começaria a trabalhar...
Ainda nesse mesmo dia, o ministro do Trabalho, Silva Peneda, andava por perto. Uma jornalista da Antena 1 interpelou-o sobre o que se estava a passar. O governante mostrou-se indignado e prometeu que o Governo iria intervir, pois a situação configurava um caso de lock-out. Outros políticos também apareceram, para manifestar solidariedade e com promessas de não dar tréguas a Carlos Barbosa...
Nos dias seguintes, o prometido advogado foi apresentando as propostas do novo patrão para a rescisão dos contratos. Eu acabei por assinar. Os que o não fizeram, passaram anos à espera de uma decisão do tribunal. Nalguns casos, fui sabendo, com custos irreparáveis em termos pessoais...
Quinze anos se passaram. Carlos Barbosa reabriu, meses depois, a delegação da Rádio Comercial no Porto. Nas mesmas instalações, com alguns dos que havia despedido. Quanto a Silva Peneda, nem mais uma palavra sobre o assunto. O "crime" compensou Carlos Barbosa, mas a Rádio Comercial nunca mais voltou a ser a mesma.
Quinze anos depois, alguém trocou as fechaduras n'O Primeiro de Janeiro. Sucedem-se os discursos políticos (de alguns...). Desta vez, o Governo permanece em silêncio. Pelo menos não promete nada, digo eu. A solidariedade entre jornalistas já não é o que era. Bem pelo contrário. Talvez sejam os efeitos da lei da selva em que os Barbosas e os Eduardos ajudaram a transformar o mundo da Comunicação Social, auxiliados pela avalanche de cursos superiores de Jornalismo que, anualmente, despejam jovens para um mercado de trabalho cada vez mais curto.
Quinze anos depois, a história vai-se repetindo. Rádio Comercial Norte, O Comércio do Porto, O Primeiro de Janeiro. Sempre na mesma altura do ano, período de férias. Infelizmente, no caso d'O Primeiro de Janeiro a estratégia empresarial vai mais longe no desrespeito pelos direitos mais elementares dos trabalhadores: despedidos sim, mas nada de indemnizações.
Os responsáveis serão punidos? Tenho sérias dúvidas.
